Venho tentando, há tempos, cultivar uma horta no meu apartamento. Na verdade, horta é uma expressão bem generosa porque até o momento só tentei manjericão, coentro, hortelã, arruda e pimentas, mas tenho fascinação por plantas e no gigante apartamento de 80m₂ em que vivo há alguns anos, tento insistentemente ter estas espécies habitando em harmonia comigo.

 Mas, preciso confessar minha frustração: não tenho obtido sucesso. Tenho plantas diversas aqui, flores, pimenteiras e quatro vasos de uma planta enorme que não sei o nome, mas que uma vez por ano, dá uma flor linda que perfuma a casa toda. Mas, quanto a horta, nada. Já tentei absolutamente tudo que me ensinaram: plantei sementes, mudas e partes da planta. Coloquei em vasos rasos e profundos. Troquei de lugar. Deixei ficar no sol. Deixei mais tempo na sombra. Molhei todos os dias. Molhei só três vezes por semana. Isso sem falar nas conversas, estou ali, ao lado, contando o quanto são especiais para mim. Nada funciona. Elas até brotam e me deixam toda feliz, mas, dias depois, estão lá, murchinhas, secando, indo embora…

 Nesta peleja travada, conto com uma parceira, minha secretária do lar, que adota as mais diversas técnicas: planta o caroço, planta um pedaço da folha, coloca muda com raiz e tudo que a sabedoria popular permite ensinar.

 Numa destas tantas tentativas, eis que um dia chego em casa e me deparo com vários pezinhos de coentro e cebolinha, crescendo viçosamente. Fiquei em êxtase e comecei a comemorar. Troquei o lixo de lugar e descobri que o canto de sol talvez fosse o segredo. Molhei a caco todos os dias, conversei com eles, e, ainda não era desta vez.

 Um dia, chegando à noite, corri para visitá-las e deparei com as bichinhas já murchas, sem vida. Nem sei explicar a vocês a tristeza que sinto, mas ela está lá, mexendo comigo, me dizendo que não tem jeito, que não vou conseguir, que talvez não tenha nascido para plantar uma horta no apartamento, que elas não gostam de mim. Todas estas vozes me afligem, me aporrinham, me trazem a decepção de mais uma tentativa frustrada.

Fico ali uns dias tristinha e dizendo que não quero mais saber de plantar a horta. Mas aí, olho o caco vazio, a terra à espera e algo me movimenta de novo. Lembro que tenho outras plantas que vivem lindas há tantos anos no mesmo apartamento que já deram filhos, aliás vivem dando filhotes e trazem ao meu lar o tom da natureza que tanto aprecio. E lá vou ao Ceasa novamente, compro mais terra, outros cacos e recomeço. Peço dicas a todos que encontro, pergunto como devo cuidar, se elas precisam de água todos os dias, se precisam tomar sol, sombra ou manter sempre no mesmo lugar. Volto para casa e recomeço. Mais uma vez.

Neste momento em que escrevo a vocês, trouxe um pé de manjericão e estou estudando colocá-lo sozinho em outro vaso e ver como ele se comporta, até porque, esta semana, minha secretária me surpreendeu. No caco que estava vazio, ela colocou sementes de milho! Bom, achei a coisa um tanto exagerada e sem a menor possibilidade destes grãos brotarem, afinal, eles estão na menor jardineira que há no apartamento. Olhei aquilo com bem estranheza, até conversei com eles, mais preparando-os para o fim próximo do que para o nascimento. Mas, para minha surpresa, alguns grãos já brotaram, então, não posso colocar outra planta lá. Vou recomeçar com o manjericão em outro canto.

 Mas agora, quero deixar as plantas por um instante e chegar às pessoas e aos seus desafios, em especial, novos desafios. Quando eles chegam até nós, somos provocados, testados, avaliados, pressionados, exigidos e esperados! Espera-se que o nosso brotar seja esplendoroso, que nossas folhas sejam do verde mais bonito, que nosso perfume (se formos de uma espécie que perfuma), seja envolvente. Que estejamos sempre viçosos para encantar os que se colocam a nos admirar e, que nossos frutos sejam os mais saborosos e nutritivos.

Só que, quando sou semente, as condições externas podem facilitar bastante o meu desenvolvimento, mas acredito também, que em algum momento, eu semente, posso estar tão fragilizada ou assustada e aí, mesmo que tudo ao redor seja propício, não conseguirei brotar.

Como nós podemos ampliar essa crônica para nosso papel na gestão de pessoas? Como temos cuidado das nossas sementes? Para quem escolheu o caminho da liderança, o caminhar é por demais desafiador! Hoje, não tenho a pretensão de lhe deixar respostas, mas aproveitar esse texto para deixar duas das minhas provocações amorosas: o que você está efetivamente fazendo para desabrochar como líder e como está tratando suas sementes?

Não sei se me sinto a semente ou a semeadora. Talvez, seja as duas coisas. Preciso preparar o terreno para que outras sementes brotem, mas também preciso brotar. Tenho a expectativa da vida do que semeei, mas também sei que outros esperam os meus frutos. Como é difícil nascer! Como por vezes, é difícil recomeçar! E como é belo, extraordinário e maravilhoso, brotar!

Então, quero deixar aqui, a compreensão de que, por mais difícil que seja empurrar a terra para, enfim, respirar e existir, a recompensa de ver a vida de pé, de sentir o sol roçando nas suas folhas e de contribuir com a extasiante experiência de viver e construir, vale qualquer esforço!

Quanto às minhas plantas e sementes, quero dizer-lhes que continuarei tentando. Lembrarei das que já habitam comigo e continuarei acreditando na vida, estarei à espera do nascimento de cada uma, com toda atenção e amor que eu puder dedicar e com toda água, sol, sombra e conversa que elas precisarem. Do mesmo jeito, quero que as pessoas que a mim foram confiadas, saibam que também acreditarei nelas e dedicarei o sol, a sombra, a água e a conversa corporativa que precisarem. E torço para que elas queiram e acreditem estar em solo apropriado e que estejam fortalecidas, porque caso contrário, o meu esforço não será capaz, sozinho, de fazê-las brotar.

Agora, uma pequena aflição me atinge, o que vou fazer se o pé de milho crescer?

Feliz brotar para todos nós! Felizes frutos para nossas vidas!

Fabíola Matos

Sócia-diretora da Arttha Gestão &RH. Pedagoga, mãe, escritora, líder, semente, semeadora e, profundamente apaixonada pela vida.